E tudo se passava em
câmera lenta. Eu tentava permanecer
firme, manter o controle, mas ia perdendo a consciência aos poucos. Vi-la
correr até mim, tinha uma expressão desesperada no rosto, mas mesmo assim
continuava linda. Tinha os cabelos
ruivos ondulados na altura da cintura, vestia calça jeans surrada, uma blusa bege
e usava seu inseparável all star azul. Simples e linda. Suas bochechas coradas
com sardas eram as coisas mais lindas que já vi. Ouvi-a gritar por mim, mas era
como se eu estivesse longe... O volume de sua voz ia diminuindo aos poucos...
Seu rosto entrou em minha área de visão, mas a imagem estava cada vez mais
turva. Eu não conseguiria aguentar mais tempo. Fiz meu último esforço e apertei
sua mão. Uma lágrima solitária rolou pelo meu rosto e perdi todos os meus
sentidos.
Abro meus olhos e vejo-a sentada no fundo do quarto em um sofá, com as
pernas encolhidas e com o rosto vermelho e inchado. Ela estava chorando.
Observei o movimento desesperado de seus ombros, os soluços baixos que eram
tapados pelo fato de seu rosto estar enterrado em um casaco. Seus cabelos
estavam desalinhados e ela tinha olheiras profundas o que fazia parecer que não
dormia a séculos. A cada soluço que eu escutava, uma nova parte de mim morria.
Eu não tinha voz. Minha garganta ardia de uma forma horrível. Eu queria
chamá-la. Queria dizer que tudo um dia terminaria bem. Queria gritar, mas não
podia porque sabia que nada terminaria bem. Esse era meu destino. Eu morreria e
soltaria uma granada, o que além de me matar, mataria um pouco quem estivesse
por perto, também. Era algo inevitável.
Minha respiração era cortada aos poucos.
Juntei todas as minhas forças
para que algum som saísse da minha garganta. Abri a boca e minha voz saiu rouca
e em forma de sussurro. Ela olhou-me com olhos arregalados e deu um pulo, vindo
em minha direção correndo, quase tropeçando em seus próprios pés. Enxugou o
rosto com as mangas de seu moletom e deu um sorriso sem mostrar os dentes.
Aquele não era o sorriso que eu tanto amava. O que eu estava fazendo? Estava
matando-a.
Minha visão começou a ficar turva e lágrimas começaram a brotar de meus
olhos. Ela olhou-me triste. Aquele brilho em seu olhar, que era sua marca, se
apagara. Agora estavam tristes e a culpa era exclusivamente minha. Tentei falar
novamente, mas nada saiu. Queria lhe pedir desculpas por acabar com sua vida.
Queria desculpar-me por não poder lhe acolher em meus braços e niná-la como
antigamente. Só Deus sabe o quanto eu queria poder fazer isso novamente.
Ela sentou-se na ponta da cama e acariciou minha mão. Eu ainda não havia
contido o choro, soluços secos era a única coisa que podia ser ouvido naquele
quarto. Fechei os olhos. Se havia uma hora para morrer, que fosse agora.
Pouparia despedidas.
Senti que ela deitou-se ao meu lado e abraçou-me com força, encostando
sua cabeça em meu peito. Acariciei seus cabelos pela última vez, se fosse para
morrer agora, que fosse ao lado de alguém que fez minha vida valer à pena.
Eu suspirei pesadamente e seu olhar foi direcionado para cima, erguendo
a cabeça. Eu estava cada vez mais fraco. Peguei sua mão e depositei-a em meu
peito, fazendo-a sentir as batidas do meu coração. Sussurrei que a amava e
notei que havia recomeçado a chorar. Tentou tirar sua mão de onde estava, mas
segurei-a ali. Queria que sentisse que as últimas batidas do meu coração haviam
sido por ela. Apenas por ela. Meus olhos foram se fechando aos poucos, até a
inconsciência receber-me de braços abertos.
Aquele era meu fim. Eu sabia disso e o recebi amigavelmente. Aquele era
meu destino. Estava
escrito nas estrelas com tinta permanente, e eu não poderia mudar. Algo além disso me esperava, ou pelo menos era o que
eu queria acreditar.