terça-feira, 24 de junho de 2014

Escrito nas estrelas...

E tudo se passava em câmera lenta.  Eu tentava permanecer firme, manter o controle, mas ia perdendo a consciência aos poucos. Vi-la correr até mim, tinha uma expressão desesperada no rosto, mas mesmo assim continuava linda.  Tinha os cabelos ruivos ondulados na altura da cintura, vestia calça jeans surrada, uma blusa bege e usava seu inseparável all star azul. Simples e linda. Suas bochechas coradas com sardas eram as coisas mais lindas que já vi. Ouvi-a gritar por mim, mas era como se eu estivesse longe... O volume de sua voz ia diminuindo aos poucos... Seu rosto entrou em minha área de visão, mas a imagem estava cada vez mais turva. Eu não conseguiria aguentar mais tempo. Fiz meu último esforço e apertei sua mão. Uma lágrima solitária rolou pelo meu rosto e perdi todos os meus sentidos.

Abro meus olhos e vejo-a sentada no fundo do quarto em um sofá, com as pernas encolhidas e com o rosto vermelho e inchado. Ela estava chorando. Observei o movimento desesperado de seus ombros, os soluços baixos que eram tapados pelo fato de seu rosto estar enterrado em um casaco. Seus cabelos estavam desalinhados e ela tinha olheiras profundas o que fazia parecer que não dormia a séculos. A cada soluço que eu escutava, uma nova parte de mim morria.

Eu não tinha voz. Minha garganta ardia de uma forma horrível. Eu queria chamá-la. Queria dizer que tudo um dia terminaria bem. Queria gritar, mas não podia porque sabia que nada terminaria bem. Esse era meu destino. Eu morreria e soltaria uma granada, o que além de me matar, mataria um pouco quem estivesse por perto, também. Era algo inevitável.

Minha respiração era cortada aos poucos.

Juntei todas as minhas forças para que algum som saísse da minha garganta. Abri a boca e minha voz saiu rouca e em forma de sussurro. Ela olhou-me com olhos arregalados e deu um pulo, vindo em minha direção correndo, quase tropeçando em seus próprios pés. Enxugou o rosto com as mangas de seu moletom e deu um sorriso sem mostrar os dentes. Aquele não era o sorriso que eu tanto amava. O que eu estava fazendo? Estava matando-a.

Minha visão começou a ficar turva e lágrimas começaram a brotar de meus olhos. Ela olhou-me triste. Aquele brilho em seu olhar, que era sua marca, se apagara. Agora estavam tristes e a culpa era exclusivamente minha. Tentei falar novamente, mas nada saiu. Queria lhe pedir desculpas por acabar com sua vida. Queria desculpar-me por não poder lhe acolher em meus braços e niná-la como antigamente. Só Deus sabe o quanto eu queria poder fazer isso novamente.

Ela sentou-se na ponta da cama e acariciou minha mão. Eu ainda não havia contido o choro, soluços secos era a única coisa que podia ser ouvido naquele quarto. Fechei os olhos. Se havia uma hora para morrer, que fosse agora. Pouparia despedidas.

Senti que ela deitou-se ao meu lado e abraçou-me com força, encostando sua cabeça em meu peito. Acariciei seus cabelos pela última vez, se fosse para morrer agora, que fosse ao lado de alguém que fez minha vida valer à pena.

Eu suspirei pesadamente e seu olhar foi direcionado para cima, erguendo a cabeça. Eu estava cada vez mais fraco. Peguei sua mão e depositei-a em meu peito, fazendo-a sentir as batidas do meu coração. Sussurrei que a amava e notei que havia recomeçado a chorar. Tentou tirar sua mão de onde estava, mas segurei-a ali. Queria que sentisse que as últimas batidas do meu coração haviam sido por ela. Apenas por ela. Meus olhos foram se fechando aos poucos, até a inconsciência receber-me de braços abertos.

Aquele era meu fim. Eu sabia disso e o recebi amigavelmente. Aquele era meu destino. Estava escrito nas estrelas com tinta permanente, e eu não poderia mudar. Algo além disso me esperava, ou pelo menos era o que eu queria acreditar.


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